Agora antes que seja tarde vamos voltar para a manhã onde os dois amigos se encontraram. O colega de Paulo estava do lado de fora, chamava o nome do amigo, andava em frente ao portão, tentava dar uma espiada em cima do muro, batia palma e então tornava a chamar o nome do amigo. Até que a mãe de Paulo atendeu o menino e mandou-o entrar, explicou que ele ainda dormia, mas que ele poderia acordá-lo perfeitamente. Ele hesitou, não queria incomodar, mas também não saia do lugar. A mãe encantada com a educação do garoto insistiu que fosse ao quarto da primeira porta a direita e lá foi ele.
Paulo... Paulo... Pauloo, Pauloo, Pauloou! Ele nunca ficou tão contente em ver um rosto praticamente desconhecido pela manhã! Então deu um salto da cama, já havia ficado lá mais tempo do que esperava, chamou o amigo para entrar e em meio a bagunça do seu quarto nem quis saber o que levou o amigo, até então desconhecido, e já foi pegando o saco de brinquedos e espalhando pelo quarto, bagunça em cima da bagunça, mas no meio do barulho o pai que até então se encontrava quieto, deu somente uma advertência: Paulo faça primeiro o que tem que fazer tome seu banho escove os dentes e vá tomar o café depois sim vá brincar! Dito e feito...
E lá estavam eles brincando no quarto, o amigo tentando se divertir com alguns carrinhos e robôs observava Paulo com o seu soldado intocável, intocável sim, pois foi a única regra que Paulo obrigou ao amigo: poderia brincar com todos os brinquedos menos com o soldado, mas sabem como são crianças, sempre acham o brinquedo proibido ou o do amigo melhor do que aqueles que elas tem. Então o amigo ficou observando Paulo que finalmente brincava com o seu boneco em um canto mexendo a boca: “gire a corda uma... Duas... Três vezes, apenas! Agora segure a corda para que ele não saia antes, coloque no chão! Preste atenção! Solte no chão e pronto!”, depois de fazer suas supostas preces ele soltava o soldado e ficava admirando o seu movimento. Encanto isso o amigo parecia afoito, não entendia o que levava um garoto a rezar antes de brincar, então foi chegando de mancinho atrás de Paulo para ouvir melhor a reza. Pronto, a risada saiu descontrolada, não entendia nada, afinal o que Paulo fazia lá que não parava de repetir, repetir, repetir. O amigo perguntou e Paulo disse que era assim que ele deveria manusear o soldado e não podia esquecer a ordem que o Pai ensinou, deu um sorriso meio sem graça, mas ainda ficou sem entender o motivo de tanto riso do amigo. O amigo tentou explicar que os pais falavam isso todo o tempo, mas que ele não precisava de uma ordem para poder brincar com o Boneco e afinal, Seu pai não está aqui e muito menos está no boneco! Essa idéia era realmente ótima, Paulo encontrou o esconderijo perfeito, um lugar onde o seu Pai não poderia encontrar com a sua voz mandona, o boneco.
Girando a corda uma... Duas... Três, Quatro, Cinco vezes! Agora segure a corda para que ele não saia antes, coloque no chão! Nossa, era ainda mais divertido ver o boneco se movimentando naquela velocidade. Paulo estava feliz por ver um lugar onde poderia correr sem ninguém mandar, mesmo que fosse através do boneco, o amigo também estava muito feliz, pois finalmente acabou brincando com o soldado, mesmo que fosse através de Paulo.
A velocidade não diminuía! O soldado que antes com três cordas parava de andar no meio do quarto, agora estava mais acelerado e só iria parar se quebrasse na parede. Se ele ao menos soubesse desviar da parede e se as crianças não tivessem ficado tão alegres e distraídas poderiam ter salvado: o soldado da morte, Paulo de uma surra e o amigo do desaparecimento da casa e da vida de Paulo.
E a única lembrança que Paulo tem do soldado são as suas últimas palavras “Vamos em frente!”.
Thursday, March 13, 2008
Thursday, March 06, 2008
Continuação
1. Após os longos cantos de parabéns, enfim todos foram para casa. A frustração aumentava, Paulo sabia que estaria a sós com o seu brinquedo, mas mesmo assim ele não poderia brincar como queria. Interminável noite, a criança com os olhos atentos no seu presente, se remexia e se revirava quanta angústia! Tudo porque ele temia que quando fosse brincar com o soldado alguém acordasse. Tentou dormir, mas seus pensamentos estavam voltados para outro lugar tão turbulento que nem os sonhos ousariam acalmar. Acho que é verdade... Quando tentamos acalmar os nossos pensamentos o corpo não consegue acompanhar e se rende.
2. Logo de manhã foi acordado pelo seu até então colega. Logo de manhã, manhã bem cedo para falar a verdade, só um colega para aparecer em horário tão impertinente, mas vou adiantar para você, essa será a única impertinência desse colega na história aqui citada, contudo nem por isso ele não exerce um papel importante, talvez não tanto para receber um nome, mas mesmo assim vamos dedicar às palavras de hoje unicamente para conhecermos melhor esse garoto. Infelizmente nem toda criança é afortunada como Paulo, seu colega não tem brinquedos e isso para as crianças é um sinal de má sorte. Às vezes parece que a vida é feita dessas brincadeiras, uma coisa tão tola como simples brinquedos podem definir uma espécie de classe social para as crianças, e o pior é o resultado disso, um ciclo que o colega de Paulo entra:
1) Para andar junto com todas as crianças o amigo sempre dá a mesma desculpa, fala que vai ganhar um brinquedo super novo e muito legal, nessa fase ele andará cercado de amigos por todos os lados, ilhado na sua mentira.
2) Após as primeiras semanas alguns vão se afastando, podemos chamar esses de zombadores, preferem perder a esperança no novo possível brinquedo do menino, desacreditados eles ficam cuspindo piadas e tentam puxar o restante do grupo para dar uma última cusparada.
Apenas duas fases que já duram certo tempo! Por sorte/azar as crianças tem uma memória fraca e acabam sempre esquecendo e acabam sempre zombando, pobre.
3. É chegado o momento, agora só resta um, Paulo, de principio teria tudo para não dar certo, afinal o que um teria para oferecer para o outro? É justamente no silêncio dessa pergunta que deveria residir o verdadeiro sentido da amizade.
Ele passou no corredor, já com a cabeça baixa e apressando o seu passo para que ninguém pergunte novamente sobre o presente do pai. Do outro lado ele bebe água, pensando distraidamente na grande festa que vai dar logo mais, já chamou quase todo mundo. Ao ver quem está no bebedouro aperta o passo. Aperta o passo. Até o encontro parecer inevitável. Até o desencontro parecer impossível. Assim ele foi convidado para a festa de Paulo e assim Paulo chamou o menino para a sua festa.
Continua...
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