A ponte sobre um rio, a água vai passando e ninguém pode parar esse fluxo. Por mais que estejamos à cima e por cima da água, não podemos pará-la.
14:35 Dona Estela sai de casa, gira a chave uma vez somente, faz um rápido gesto em direção à Kombi que já vai sair. Sempre a Kombi sai com 3 passageiros e como sempre os 3 passageiros sentam nos mesmo lugares. Mas hoje por um acaso a Kombi só tem dois passageiros.
14:30 A meninada sai da escola e o menino com mochila do Mickey se atrasa.
14:25 O homem da pipoca começa a colocar os milhos.
Hoje finalmente a mãe do Claudinho conseguiu uma folga no trabalho, isso porque ela teria que levar o seu filho para realizar os periódicos, mas para ela ficar longe do trabalho, mesmo que fosse para perder o dia em uma fila no hospital, já seria uma ótima folga. Pois somente ela sabia como era bom não ter que depender da Kombi para ir para o trabalho, era duro para ela encontrar as vizinhas de sempre indo buscar o seu filho na escola, enquanto para ela o trabalho estaria apenas começando.
Na verdade o menino se atrasou porque sentiu cheiro de pipoca e foi procurar o seu amigo em outra sala, isso porque ele sabia que certamente teria o dinheiro para a pipoca com o amigo que estava devendo uma pequena fortuna. O menino estava empenhado em achar o amigo, tanto que perguntou para todos, até para quem ele não conhecia, sobre o amigo devedor, mas o que ele não sabia, mas que eu já sabia, era que o amigo não iria hoje na escola, sua mãe o levou para fazer exames. Infeliz criança perdeu a vanzinha que o levaria para a casa! Senão fosse a sorte que ele teve ficaria perdido na cidade. Sim, sorte de ter encontrado um lugar na Kombi que sempre volta cheia, sorte que teve da tia com roupa de operário não ter ido hoje!
E o pipoqueiro seria apenas um figurante, senão fosse o azar que ele teve. Sim, azar de ter faltado 1 real para pagar a conta de luz! Justamente o preço de um saco de pipoca.
E naquela cidade por acaso, ou não, em cima da ponte é que fica o melhor lugar para observar a vida de todos.
Bem, eles acham que tudo isso é acaso, sorte e azar, mas para mim que observa tudo de cima, isso não passa de parte do cotidiano. Por isso gosto de observar e anotar tudo o que acontece, não que eu não acredite no acaso, muito pelo contrário, me considero um caçador de acaso. Mas não posso cair nessas armadilhas que todos costumam cair, tenho que fugir disso! Sim, tenho que fugir do costume.
E no dia em que eu mais me distraio é que o acaso aparece. Ela atravessou a ponte tão de pressa que nem pude pensar ou observar algo. Assim, ela foi tão rápido quanto chegou. No dia seguinte revisei todas as minhas anotações em busca de algo sobre ela, mas encontrei nada, era simplesmente nova na cidade e ele não sabia como encontrá-la novamente! Então resolvi deixar para lá, afinal o bom caçador não é aquele que prende e aproveita da caça, mas sim aquele que admira e deixa livre a caça, pelo menos era nisso que gostaria de acreditar.
Foi então que novamente ela passou com a sua bicicleta, dessa vez não tão veloz e parou na frente dele. Nervoso, sem ter o que falar, foi ela que tomou a iniciativa, era como se ela estivesse preparada para aquela situação. Então ela perguntou sobre a cidade e se ele poderia apresentar alguns lugares legais para ela. Ele já sabia os lugares que iria apresentar, pois sonhava com aquele momento. Então ficaram o dia todo juntos, até que na praça deram as mãos e ele revelou que sempre sonhava com um momento como aquele, foi então que ela afirmou que não só sonhava com um momento como aquele, mas que planejou tudo. A verdade era que ela se mudou fazia umas 3 semanas, mas como não tinha amigos só ficava em casa e a primeira pessoa que chamou a sua atenção foi o menino que tudo observava. Ela explicou que ele não poderia ter visto a mudança, pelo simples fato da casa dela ficar à beira do rio. Depois de ouvir tudo isso e descobrir que ele foi apenas um jogo do cotidiano o garoto se desesperou, saiu correndo em direção à única testemunha disso tudo, a ponte. Subiu ao ponto mais alto da ponte, talvez tenha sido isso! Ele não subiu o suficiente para observar tudo! Nesse momento, ele viu a casa da menina na beira do rio, e viu o rio, como ele partia. O garoto observou também que o rio vai sem pensar no cotidiano. Então simplesmente ele lançou sua vida no rio.
1 comment:
Vim te visitar e adorei ver que o blog está cheio de novidades e que continuas escrevendo. Gostei particularemnte deste conto. Bem imagético.
Beijos
http://fosfotilando.blogspot.com
Post a Comment